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A economia da atenção lenta: o luxo de não estar disponível
A economia da atenção lenta não é algo que vai chegar, ela já chegou, a diferença é que agora você já sabe o nome
01/01/1970 00:00:00
Você já deve ter lido ou ouvido a expressão economia da atenção. Na década de 70, o economista Herbert Simon já estava prevendo o que na década de 90 viria a se tornar um conceito muito difundido. Simon na época dizia que a atenção humana é finita na medida em que os estímulos crescem e a capacidade de processar diminui. Décadas depois, em 1997, o físico Michael Goldhaber trouxe essa constatação para sua tese econômica em um ensaio da Wired intitulado Economia da Atenção. Ele dizia que quem comandaria no futuro era quem conseguisse capturar a atenção das pessoas de forma mais consistente. A vida seguiu até chegar as redes sociais, notificações infinitas, milhares de e-mails não lidos, máximo tempo de tela. A atenção virou recurso não respeitado.
Corta para 2026, onde estamos. Todos os dados apontam para o mesmo: parece que esse modelo está se esgotando. Você tem percebido os movimentos de Instagram ultimamente? Agora a entrega maior do algoritmo é para conteúdos que conseguem prender atenção, métricas foram alteradas para conter a queda de 26% no engajamento da rede em único ano. Mas não foi somente o Instagram que perdeu atenção. Sabe qual é a retenção média do Facebook por post? Míseros 0,15%; X também segue em queda. Isso sem falar, como consumidores sabemos bem disso, quantas mensagens no Linkedin, quantos e-mails ignoramos, sem contar telefone, aqui o “não perturbar” está ligado 24h por dia.
A verdade é que a teoria de Goldhaber foi destruída por sua própria lógica: quanto mais pessoas competem por atenção, mais nos protegemos e nos blindamos ignorando a tudo. Pensando nesse colapso e também nas evidências científicas de que o cérebro não foi criado para ser interrompido a todo momento, eu proponho um novo conceito: a economia da atenção lenta. A visibilidade permanente já não é a métrica de sucesso, a invisibilidade seletiva é.
O que a neurociência diz sobre o que o mercado fez com a atenção
Tenho falado muito ultimamente da síndrome do insight acumulado, quando as empresas têm todas as respostas e não agem. É o caso aqui, as pesquisas científicas que falam sobre atenção e cognição das últimas décadas apontam para evidências ignoradas sistematicamente, uma vez que contrariam o modelo de negócios dominantes. Em 2023 A UC Irvine, em estudo liderado pela pesquisadora Gloria Mark, informou que trabalhadores do conhecimento gastam em média cerca de 47 segundos em uma mesma tela ou tarefa antes de se distraírem ou mudarem de atividade. O mesmo laboratório havia mostrado anos antes que uma única interrupção pode exigir cerca de 23 minutos até que o foco seja recuperado totalmente.
O MIT mostrou que, quando o cérebro fica pulando rápido entre tarefas e estímulos, as pessoas cometem mais erros, lembram menos e pensam pior, justamente nas funções de atenção e decisão que o trabalho exige. Em termos de negócios, isso não gera apenas cansaço para o profissional, mas perda da capacidade de executar seu trabalho plenamente. Não à toa estamos observando aumento de burnout e transtornos mentais .
O burnout nada mais é do que o resultado de anos de pesquisa ignorados, que tratam a disponibilidade permanente, sobretudo após a epidemia de Covid 19 e o advento do home office, como comprometimento, resiliência, quando na verdade é a destruição da capacidade de entregar.
A pausa deliberada nas redes sociais, documentada pela American Psychiatric Association, percebida em adultos de 18 a 34 anos nos EUA em 2024, não foi um acaso, foi motivada pela preservação da saúde mental. Ninguém abandonou as plataformas, apenas escolheram quando e como aparecer, essa distinção é o cordão comportamental do que tenho chamado de economia da atenção lenta.
A inversão do que significa status em 2026
Um dos meus negócios é o Habla Press da Rede Habla de Comunicação, um canal de distribuição de releases, posso dizer que durante anos a máxima era, seja visto para ser lembrado. Isso implicava em publicar diariamente, produzir conteúdo autoral intensamente, ter disponibilidade imediata para respostas era visto como presença. Porém, esse código cultural tem mudado, a lógica está se invertendo, não apenas a estética, mas econômica também.
Atualmente, as pessoas estão recusando o que não merece atenção e estão aprendendo a não se justificar por isso, o tempo está sendo visto como recurso limitado e valioso. O luxo da agenda cheia foi dando lugar a agenda protegida. Por isso trabalhos como o do Habla fazem tanto sentido, deixar sua marca no mundo, sem precisar se expor a todo tempo. Para marcas há consequências diretas, a lógica do barulho contínuo está minando a confiança dos clientes. O assédio antes considerado natural, notificações falsas de urgências, não estão fazendo com que as marcas percam vendas somente, mas o relacionamento. O CAC, custo de aquisição do cliente, está sendo visto com o prisma de custo de reputação. Métodos de vendas considerados invasivos pelos consumidores, provocam o cancelamento digital daquele produto ou marca.
O que muda na prática
Quando fui lançar o podcast Habla Empreendedora na Rede TV! Paraná falando com uma jovem empreendedora a convidei para assistir ao programa; ela falou que não poderia, porque não tinha televisão. Que toda a programação dela passava pelo notebook ou pelo celular. Na mesma semana, percebi que uma profissional da geração Y com quem trabalhava, não usava redes sociais e como ela preferiu nominar, é low profile. Não é excentricidade, é escolha consciente sobre quando e onde elas querem colocar atenção.
Esses dois casos não são exceção, são novos comportamentos e que veremos cada vez mais; é a economia da atenção lenta na prática. Se você me perguntar o que muda na prática, vou te tranquilizar de certa maneira, porque a pergunta mais honesta que você pode se fazer é: o que meu cliente espera de mim? O que minha família e amigos como consumidores têm reclamado? Ou tem elogiado? Aí está seu ouro, mas já vou te dizendo que não entupir a caixa de seus clientes com conteúdo que ele não pediu, já é uma grande mudança. Mapear o que ele está precisando, entregar de forma precisa e respeitá-lo quando ele não responde, não é passividade, é o novo selo de confiança.
Por que isso importa agora
Ao mandar robôs ligarem incessantemente para um cliente, ou enviarem a cadência de e-mails que todos sabem que foi enviada por uma automação, você está perdendo de uma vez por todas a confiança dele. Ele passa não somente a não comprar com você, mas a ser seu detrator.
Esse texto não pretende prescrever um método, mas nomear essa tendência corroborada por dados e comportamentos e informar: a economia da atenção lenta não é algo que vai chegar, ela já chegou, a diferença é que agora você já sabe o nome.
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