Material reúne 745 perguntas e respostas para auxiliar no preenchimento da declaração do IRPF referente ao ano-calendário 2025, com inclusões e atualizações baseadas em mudanças na legislação tributária
Notícia
O paradoxo da Selic: por que o brasileiro deixa de guardar dinheiro?
Mesmo com juros básicos a 14,75%, saques em fundos de investimento e na poupança cresceram em março. Inflação, petróleo caro e endividamento reduziram a capacidade do brasileiro de poupar
01/01/1970 00:00:00
Em meio ao aumento das incertezas no mercado internacional devido ao conflito no Oriente Médio e ao endividamento elevado das famílias, os recursos de aplicações na renda fixa estão minguando, apesar de a taxa básica de juros (Selic) ainda estar em 14,75% ao ano. Os saques dessas aplicações aumentaram no mês passado, devido à disparada do petróleo, o que reduziu a capacidade de compra do consumidor brasileiro por conta do aumento da inflação, de acordo com especialistas.
Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), divulgados na semana passada, comprovam isso. A captação líquida dos fundos de investimentos desabou 83,4%, passando de R$ 63 bilhões em fevereiro, para R$ 10,6 bilhões em março. Segundo a entidade, esse tombo nas captações líquidas pode ser explicado por uma conjunção de fatores e o principal deles foi o aumento dos resgates líquidos nos fundos de renda fixa, categoria que inclui os fundos de crédito privado.
"Esses produtos têm enfrentado saídas em um contexto de maior volatilidade nos mercados e de aumento da aversão a risco por parte dos investidores. Do ponto de vista estrutural, no entanto, estes fundos seguem atrativos, como alternativa de diversificação de investimento. Outro fator que pode ter contribuído para esse movimento é a necessidade de parte dos investidores de sacar recursos para honrar despesas e dívidas, em um ambiente de juros ainda elevados", informou a nota da instituição.
A maior captação em março foi dos fundos de índices de ações (ETFs), que registraram entrada líquida de R$ 6,9 bilhões, seguidos da classe de renda fixa com R$ 4,5 bilhões — recuo de 91,9% em relação aos R$ 55,6 bilhões contabilizados em fevereiro — e Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC), com R$ 2,4 bilhões. Apesar dessa forte queda em março, a classe de fundos de renda fixa seguiu na liderança, com captação líquida acumulada no ano de R$ 130,3 bilhões, segundo a entidade.
No acumulado de janeiro a março, a Anbima registrou a captação líquida de R$ 159,2 bilhões — salto acima de 1.700 % sobre os R$ 8,3 bilhões contabilizados no mesmo período do ano passado e o melhor resultado para o nos últimos cinco anos. Com esse desempenho, o patrimônio líquido da indústria de fundos atingiu R$ 10,8 bilhões, conforme os dados da Anbima. Enquanto isso, a caderneta de poupança também segue acumulando saídas líquidas neste ano. Conforme dados do Banco Central, mês passado, o total de resgates líquidos da poupança somou R$ 11,1 bilhões — valor semelhante aos R$ 11,4 bilhões contabilizados no mesmo mês de 2025. No acumulado do primeiro trimestre, as retiradas da caderneta somam R$ 41,2 bilhões, valor 9,6% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo os dados do BC.
Peso inflacionário
Apesar desses dados recordes da indústria de fundos, a retirada de recursos dos fundos em março, assim como os saques contínuos da poupança chamam a atenção sobre o fato de que o consumidor brasileiro está sentindo o peso do aumento de preços na economia que já está fazendo com que analistas revisaram para cima as projeções para a inflação deste ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março acelerou de 0,70%, em fevereiro, para 0,88%, em março, e, no acumulado em 12 meses, e analistas já estão prevendo que a inflação vai encerrar o ano acima do teto da meta, de 4,50% neste ano.
"É bem possível que a inflação fique acima de 5% neste ano. Isso é provável de acontecer, por conta da guerra no Oriente Médio e das pressões sobre os preços do petróleo. E esses saques estão acontecendo porque a inflação já está batendo à porta", afirma o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do Banco Central.
Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor-executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), também ressalta que esses saques expressivos, mesmo com os juros elevados, explicam que as famílias quando estão com dificuldades financeiras. "Essa queda reflete porque as pessoas começam a sacar. De um lado porque não sobra recursos para aplicar, sejam nos novos depósitos. Do outro, resgates para fazer frente aos compromissos", pontua.
De acordo com Oliveira, o endividamento elevado está relacionado com o crescimento menor da economia, assim como também uma percepção do impacto da aprovação das apostas on-line, que tem prejudicado as finanças das famílias mais pobres, inclusive, de beneficiários do Bolsa Família. "Grande parte desses beneficiários está usando esse recurso, que é sobrevivência de famílias com mais dificuldade nas bets. Então, eu diria que o não, claro, sozinho, mas um dos grandes problemas que nós temos aí nessa questão de endividamento, claro, tem juros altos que encarecem as dívidas, o crescimento econômico que houve uma redução. Mas tudo isso acaba impactando para o endividamento das famílias", alerta. "Eu acredito que a questão das bets, a aprovação da liberação das bets, que as pessoas pudessem apostar e tudo mais Isso tenha contribuído de alguma maneira para que as famílias se endividassem", acrescenta.
Conforme dados da Serasa Experian, em fevereiro deste ano, o número de brasileiros endividados chegou a 81,7 milhões de pessoas, o maior volume da série histórica após 14 meses consecutivos de alta. O Banco Central também tem um dado igualmente preocupante, pois mostra que, em janeiro, o endividamento total das famílias chegou a 59,7%, sendo que quase 30% da renda familiar está comprometida com alguma dívida, sem contar financiamento imobiliário.
Esse cenário, na avaliação de especialistas, é preocupante para o governo tentar lançar um novo programa do governo voltado para renegociar dívidas das famílias. Eles destacam que, como há muita volatilidade nos mercados e como a economia está em processo de desaceleração em pleno ano eleitoral, tentar estimular a economia via consumo pode ser um tiro no pé, porque pode gerar ainda mais inflação.
Pacote duvidoso
A equipe econômica vem preparando uma nova versão do Desenrola, como vem anunciando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, para que os endividados renegociem as dívidas utilizando o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para contrair novos empréstimos.
A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), fez um alerta para o efeito desse tipo de medida sem o devido cuidado. "A expansão de crédito excessivo para as famílias gera um efeito muito negativo. Para pessoas de baixa renda, sou super a favor do microcrédito para gerar renda futura. Crédito é antecipação de renda. As famílias não podem comprometer tanta renda com o pagamento do principal e dos juros", alerta.
Na avaliação de Freitas Gomes, o governo ainda precisará flexibilizar mais os valores dos depósitos compulsórios dos bancos para alongar os prazos de financiamento para estimular o crédito para as famílias e para as empresas. "Os bancos têm muito dinheiro para colocar na economia e eles poderiam dar uma colher de chá para os consumidores e as empresas, se o Banco Central não forçar, ninguém vai fazer isso. Ele precisa ser mais firme com os bancos", afirma o ex-diretor do BC.
Miguel Oliveira, da Anefac, por sua vez, defende melhores condições de renegociação das dívidas, seja alongando os prazos, seja cobrando taxas mais baixas. "E isso só vai ser possível com a garantia que eventualmente possa ser oferecida. E a segunda coisa é alguma medida de forma a combater essa questão apostas, das bets", destaca.
Para Gomes, o governo ainda está otimista, porque continua aumentando os gastos na parte social e, "quanto mais ele gasta, isso volta como inflação mais tarde". "E sabemos que ele vai procurar gastar mais para conseguir vencer as eleições neste ano. Faz parte. Só que o Banco Central vai ficar em uma situação difícil, porque não vai conseguir cortar os juros como queria", alerta, em referência aos desafios da atual política monetária.
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