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Notícia
Especialistas alertam para risco de se reduzir jornada em economia de baixa produtividade
Trabalhador brasileiro produz US$ 21,17 por hora, segundo a OIT, menos que o cubano. Problema envolve o Custo Brasil, que dificulta a adoção de tecnologias e processos mais eficientes pelas empresas
01/01/1970 00:00:00
O trabalhador brasileiro ocupa a 94ª posição no ranking mundial de produtividade, entre os 184 países avaliados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O indicador, que considera o Produto Interno Bruto (PIB) em dólar dividido pelo total de horas trabalhadas pela população economicamente ativa, coloca o país atrás de nações latino-americanas como Cuba e Argentina, e evidencia a distância em relação aos países economicamente desenvolvidos.
O empregado brasileiro trabalha, em média, 38,9 horas por semana, segundo os dados da OIT. Por hora, ele produz US$ 21,17. Como comparação, na Argentina a produtividade por hora é de US$ 33,81 e em Cuba, de US$ 22,58.
O setor produtivo tem chamado a atenção para essa baixa produtividade em meio à tramitação de propostas que buscam acabar com a escala 6x1. A Câmara dos Deputados deve votar, nesta quarta-feira, 15/04, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata deste tema. Em paralelo, o governo Lula prevê enviar ao Congresso, nesta semana, um projeto de lei com urgência sobre o mesmo assunto. Entidades, como a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a casa do empresário, defendem mais debates antes da adoção de medidas que podem aumentar os custos das empresas.
Momento inoportuno - De acordo com Antônio Lanzana, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), a discussão sobre a redução da jornada deve ocorrer, mas, como 2026 é um período eleitoral, o momento se torna inoportuno. Segundo o professor, a redução pode afetar empresas de pequeno porte que trabalham com jornada de 44 horas semanais devido à escassez de mão de obra disponível. Caso ocorra a redução, Lanzana prevê um aumento no custo com mão de obra, o que pode gerar inflação, aumento da contratação informal ou até mesmo a demissão de trabalhadores, já que as empresas não terão como manter esses funcionários.
Lanzana destaca ainda a baixa participação dos sindicatos no debate, que deveria envolver acordo coletivo e não obrigatoriedade. Além disso, diz, a redução da jornada pode afetar diretamente o consumidor final, já que as empresas podem deixar de abrir aos finais de semana. "Com esses fatores, ocorre uma desestimulação do investimento externo, fazendo com que menos empresas multinacionais migrem para o Brasil."
Os efeitos da redução da jornada de trabalho podem variar de acordo com a empresa. No entanto, Serviços e Comércio devem sentir mais, por adotarem majoritariamente a escala 6x1.
Produtividade baixa - Fora da discussão política, a produtividade brasileira relativamente baixa pode ser explicada por alguns fatores, conforme aponta Lanzana, como a falta de mão de obra qualificada devido ao baixo investimento em educação de qualidade. “Países como Singapura e Coreia do Sul, que possuíam uma renda per capita parecida com a do Brasil, começaram a investir em educação e se tornaram mais desenvolvidos economicamente”, diz.
Além disso, elementos econômicos como a falta de abertura comercial, que impede que mais setores adotem tecnologias modernas, e um ambiente de negócios desfavorável ao setor empresarial, devido ao excesso de burocracia, fazem com que o país não seja atraente ao investimento externo e, consequentemente, à adoção de processos produtivos mais eficientes.
Como exemplo, Lanzana cita a diferença entre a produtividade do agropecuário, que cresceu 6% ao ano de 1995 a 2024, e a da indústria, que cresceu apenas 0,2% ao ano no período. “A abertura comercial do agronegócio é determinante para que o setor se mantenha atualizado em meio à concorrência, fazendo com que o país invista em tecnologia e tenha alta produtividade”, diz.
O professor também cita dados que apontam perda de produtividade brasileira ao longo do tempo. “A produtividade brasileira hoje equivale a 25% da produtividade dos Estados Unidos, sendo que, em 1980, eram 46%”, afirma Lanzana.
Ele explica que existem diversas formas de medir a produtividade: por fator de produção, nível de ocupação e horas trabalhadas, entre outros. No entanto, ela está em declínio há mais de 20 anos. “Observando dados da FGV, de 1950 a 1980, a produtividade cresceu 4% ao ano, enquanto o PIB cresceu 7,3% ao ano. Já de 1981 a 2024, a produtividade cresceu 0,6% ao ano e o PIB aumentou 2,1% ao ano”, diz.
Ainda segundo Lanzana, nos últimos 10 anos a produtividade brasileira caiu 0,3% ao ano e o PIB cresceu 1,5% ao ano. "Essa queda está muito atrelada à maior presença do Estado na economia, com uma carga tributária que subiu de 25% para 42% em relação ao PIB. É também consequência da redução dos gastos com investimento, de 5,5% para 1%, e do aumento da despesa corrente, de 20% do PIB para 41%", afirma.
“Nos últimos anos estamos perdendo produtividade, não ganhando. A redução da jornada não será complexa se vier acompanhada de aumento da produtividade”, diz. Ele explica que só é possível às empresas absorverem o aumento de custos caso ocorra aumento na produtividade, o que não acontece no país ao longo dos anos.
Outro fator que prejudica a produtividade brasileira, segundo o professor, é a concessão de crédito subsidiado para empresas ineficientes, uma vez que o crédito barato e facilitado apenas permite que essas empresas sobrevivam por mais tempo, não abrindo espaço para empresas com maior potencial.
Contrapartidas - A baixa produtividade não apenas afeta a economia brasileira, como também faz com que as empresas demandem mais pessoas para realizar a mesma atividade que poderia ser feita por um grupo mais funcional e enxuto. Do ponto de vista do funcionário, esse aumento de vagas gera salários mais baixos e menos benefícios trabalhistas.
“O investimento das empresas em tecnologia e na melhoria das condições de trabalho pode minimizar problemas de produtividade, uma vez que as pessoas precisam ter todas as ferramentas necessárias para trabalhar de forma produtiva”, diz Elza Veloso, professora da FIA Business School.
Mais de 37% dos trabalhadores no Brasil atuam na informalidade, segundo Elza, que explica que a redução da jornada de trabalho atingirá apenas uma parte do mercado de trabalho, e não sua totalidade. De acordo com a especialista, um dos riscos ao adotar a redução da jornada é o aumento da informalidade e a redução da lucratividade das empresas, caso essa mudança não seja acompanhada por políticas públicas que apoiem uma transição gradual. “Por outro lado, a redução também pode diminuir o absenteísmo e aumentar o consumo de bens e serviços”, diz Elza.
Contraponto - Para Marilane Teixeira, professora de economia da Unicamp e vice-diretora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT), a produtividade brasileira relativamente baixa não está apenas associada à força de trabalho, mas também ao nível de tecnologia disponível no mercado, uma vez que mecanismos mais avançados evitam retrabalho.
A baixa produtividade pode também estar relacionada a fatores de desenvolvimento, como baixos salários. “Os setores que mais empregam no Brasil exigem baixa escolaridade, então não dependem de uma mão de obra muito qualificada”, diz. Para a economista, é preciso investir em setores estratégicos que exigem alta qualificação, elevando, assim, a produtividade e o valor agregado.
Para Marilane, a redução da jornada de trabalho causa um impacto de curto prazo, por meio do aumento de custos, que tende a ser diluído ao longo do tempo. Isso ocorre porque, com a redução da jornada, os empregados terão mais momentos de descanso e, consequentemente, haverá aumento do consumo e do interesse de pessoas em trabalhar no varejo, beneficiando as empresas no longo prazo. “Isso ocorreu nos anos 1980, quando houve uma redução da jornada de trabalho de 48 horas semanais para 44 horas”, diz.
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