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Notícia
Por Que o Bitcoin Está Ganhando Mais Espaço nos Balanços Corporativos?
Em apenas um ano, o número de empresas que adotaram o bitcoin como reserva corporativa mais do que dobrou, de 64 para 175 e fundos já chegam a US$ 60 bilhões
01/01/1970 00:00:00
Em 2025, houve aceleração da adoção institucional do bitcoin, que ganhou protagonismo como reserva de valor. Segundo um estudo da Ripio, uma das maiores plataformas de criptoativos da América Latina, pelo menos 175 empresas aderiram à acumulação desses bitcoins, conhecidos também pela sigla BTC. Isso é quase o triplo do número total de firmas que haviam aderido em 2024, de 64.
Esse aumento também foi impulsionado por alguns fatores, como a adoção em massa dos ETFs (Exchange Traded Fund) de bitcoin, os fundos que seguem o preço do bitcoin e são negociados como ações na bolsa. Além disso, as empresas passaram a utilizar o BTC para diversificar sua tesouraria fora do sistema financeiro tradicional.
No Brasil, a Méliuz, uma fintech criada em Belo Horizonte (MG) é um dos casos mais emblemáticos. Em março de 2025, a companhia informou que seu Conselho de Administração aprovou a alocação de 10% do caixa total da companhia em bitcoin.
Ela segue passos de grandes corporações americanas, tais como a Strategy (antiga MicroStrategy), que é focada em software empresarial e inteligência de negócios, e Semler Scientific, que atua no ramo de detecção precoce de doenças crônicas. O Mercado Pago, por exemplo, lançou a meli dólar (MUSD), uma stablecoin vinculada ao dólar americano.
É fato que o número de 175 empresas é ínfimo perto das milhões e milhões de empresas instaladas na América Latina e dos Estados Unidos, regiões onde a sondagem da Ripio foi realizada.
Porém, os números dão uma sólida pista de que a criptomoeda vem sendo cada vez mais adotada pelas companhias como uma forma de diversificar o patrimônio. O bitcoin, para muitos, é considerado uma proteção contra a inflação e um porto seguro em meio à instabilidade global.
Os que defendem essa tese dizem que o BTC é preferível ao ouro devido à sua resiliência digital e escassez. Lembrando que o ouro, neste ano, valorizou mais de 50% devido à busca por segurança em tempos de incerteza.
O exemplo da Strategy
O relatório da Ripio foi feito com base em dados provenientes da blockchain e on-chain. Além disso, utilizaram informações de agregadores, entre eles a Chainalysis.
O estudo indica ainda que os ETFs de bitcoin tiveram, neste ano, um forte crescimento. Em apenas oito meses, esses fundos atraíram mais de US$ 60 bilhões (R$ 325,31 bilhões) e incorporaram 1,3 milhão de bitcoins.
Na visão dos analistas da Ripio, a incorporação do bitcoin à estratégia corporativa gera uma dupla oportunidade de rentabilidade. Além da revalorização do ativo em si, a adoção pode impulsionar um avanço nas ações das companhias que o integram. Um exemplo é o da empresa Strategy, que viu seus ativos dispararem 1.230% entre 2023 e 2025, enquanto o bitcoin valorizou 437%.
No caso, a pioneira Strategy estabeleceu o modelo de “comprar, manter e repetir”, financiando suas aquisições por meio de emissões de títulos. Para o estudo, a adoção corporativa de bitcoin na América Latina foi liderada pelo Brasil, apesar da aquisição institucional e corporativa de criptoativos na região ser historicamente limitada.
O Mercado Livre, em maio de 2021, inaugurou um caminho para outras companhias regionais ao alocar 570 BTC e 3 mil ethereum (ETH) em sua tesouraria corporativa. A brasileira Méliuz, que alocou 10% do caixa total da companhia em bitcoin, viu a primeira compra gerar uma resposta positiva do mercado, com as ações da empresa subindo 35%.
Para entender melhor esse cenário, a Forbes Brasil conversou com Guido Messi, Head of Institutional Sales da Ripio Business. Confira abaixo os melhores momentos da conversa.
Forbes Brasil: O que explica as empresas adotarem o bitcoin como sua reserva corporativa, de 64 para 175 em apenas um ano?
Guido Messi: O bitcoin e as regulamentações ligadas às criptomoedas estão evoluindo e se aperfeiçoando rapidamente. A eleição de Trump como presidente dos Estados Unidos representou uma vantagem significativa para o setor, já que sua gestão tende a ser mais aberta à inovação no país. Essa mudança, somada ao surgimento de novos produtos financeiros como os ETFs, têm fortalecido a base do mercado cripto.
Empresas inovadoras e tecnológicas começaram a ver o bitcoin como um ativo de reserva. Ou seja, ele não pode ser debaseado [não serve como base para um derivativo] e não pode ser manipulado.
Companhias como MicroStrategy, MetaLabs e 21st foram muito agressivas, e essa foi uma boa estratégia financeira para eles. Quanto mais sucessos eles têm, mais empresas estão olhando para eles e dizendo: “Eu deveria tentar essa estratégia.”
O que explica a reação positiva do mercado diante dos anúncios de empresas que passaram a adotar o Bitcoin em suas operações?
Quando uma empresa anuncia que vai comprar Bitcoin como parte de uma nova estratégia, isso aumenta o valor esperado da companhia no futuro e acende diversos alertas positivos no mercado.
O motivo é que o Bitcoin oferece uma certa previsibilidade, há uma expectativa razoável de que ele manterá boa parte do seu valor e continuará se valorizando ao longo dos anos. Essa decisão se torna um divisor de águas para o valor da empresa. É como uma petroleira que descobre uma grande reserva, de repente, ela passa a valer muito mais.
O Brasil pode seguir a liderança do Mercado Livre e Méliuz em adotar bitcoin no nível corporativo?
Sim. O Brasil é o mercado mais sofisticado, pelo menos na América Latina, mas eu diria que está no top 10 mundial.
O país já é um grande player nisso, pois lançou o primeiro ETF de bitcoin através da Hashdex, quando os EUA não estavam nem considerando estrear esse tipo de produto. Recentemente, a Orange BTC, uma empresa que se tornou pública na B3 [estreou no dia 7 de outubro na bolsa brasileira] já tem um tesouro de bitcoin.
Quais são os principais riscos para as empresas que decidem alocar parte das suas reservas de caixa para o Bitcoin?
O bitcoin ainda é um ativo volátil. O primeiro risco é olhar o preço do bitcoin a curto prazo. Todas as companhias que usam o bitcoin como um ativo pensam no bitcoin a longo prazo, algo como cinco, dez ou vinte anos.
Se você decidir que parte de sua reserva será alocada em bitcoin, você deve pensar em tokens e quantos bitcoins você tem no seu balanço, e não em quantos reais ou dólares. Outro risco é que a maioria dos executivos não conhecem realmente o bitcoin. Por isso, é crucial que eles estudem antes de fazerem a decisão e não cometam o erro de olhar em um período curto.
Como o processo regulatório na América Latina poderia acelerar a adoção de criptomoedas entre as empresas?
Uma das coisas que pode acontecer é que o bitcoin se torne um “stand regulador” [passível de regulação] que permite que ele seja uma moeda. Hoje, como o bitcoin não é uma moeda, você não pode usá-lo como um meio de pagamento em uma base legal.
Uma vez que você transforma um ativo em uma moeda, você deixa aquele ativo à taxa de exceção. Se isso acontece, é mais barato ter bitcoin como um acessório. Isso também eliminaria a fricção, pois o mesmo Bitcoin que você guarda como reserva seria o que usaria para pagar e receber, sem precisar converter entre moedas ou sistemas diferentes.
O bitcoin está se tornando uma nova forma de “ouro digital” no mundo corporativo?
Com certeza. Muitas empresas guardam bitcoin através de ETFs, que dão total exposição ao ativo via um produto regulado, que é barato, tem muita liquidez, e cuja custódia é muito mais fácil de fazer. [Na prática] O bitcoin está se tornando um dinheiro digital.
No entanto, o tamanho do mercado de bitcoin ainda é apenas um décimo do mercado de ouro. A indústria considera que nós ainda estamos cedo nisso.
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