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Notícia
Pare de vender do jeito velho
O que eu aprendi sobre vendas em uma viagem histórica ao lugar de grandes comerciantes do passado
01/01/1970 00:00:00
Sou um cara naturalmente curioso e, desde que me entendo por gente, fico tentando entender a origem das coisas, dos jeitos e dos acontecimentos. Depois que assumi o papel de ajudar o varejo também venho me questionando onde aprendemos a vender ou a montar lojas e negócios.
Até pouco tempo na história, não tínhamos cursos ou faculdades que ensinassem às pessoas como conduzir ou comercializar produtos ou serviços. Sempre montamos negócios de uma forma empírica, ou seja, impulsionados apenas pelas experiências vividas, e não por técnicas específicas.
Nos últimos 20 anos, tivemos uma evolução gigantesca na disponibilidade de conteúdo técnico para a evolução das empresas, empreendedores, e, claro, para os vendedores.
A cultura dos povos tem o poder de se arrastar por séculos carregando características milenares que vão da forma de comer, pensar, trabalhar e até, acreditem, o jeito de vender. Este nosso lado empírico é abastecido a todo tempo com informações culturais, geralmente as mesmas que de alguma forma vem nos acompanhando por anos.
O comércio mundial surgiu há milhares de anos, e teve uma poderosa força no Oriente Médio, justamente por causa da sua posição geográfica privilegiada, que facilitava a comunicação entre os continentes.
Por lá, tivemos, sim, grandes comerciantes: os Fenícios, os Nabateus, e os Mesopotâmios, dentre outros povos que foram precursores da troca de produtos por dinheiro - povos verdadeiramente poderosos na comercialização de produtos.
Essa minha paixão pelo comércio antigo começou há alguns anos aqui em Portugal, lugar de onde escrevo, neste momento, este artigo. Conheci, aqui, livros lindos sobre a importância do comércio na história da humanidade, e me apaixonei pela história das vendas e seus povos.
Vivenciando a História
Mas vi que não bastava ler os livros, eu tinha que vivenciar. Comecei esta jornada pelo jeito antigo de fazer comércio há dois anos: em visitas aos Souks (mercados antigos) dos Emirados Árabes, comecei a construir uma teoria que foi reforçada depois de passar alguns dias vivendo a louca mistura comercial de Hong Kong.
Já com intuito de trabalhar nesta breve pesquisa, parti para onde tudo começou e iniciei os estudos na antiga Cidade de Jafa (que em hebraico quer dizer "Bela"), considerada umas das cidades mais antigas do mundo, hoje incorporada à moderna Tel Aviv, da linda Jerusalém.
O histórico Porto de Jafa foi a casa dos Fenícios, e é considerado o mais antigo porto comercial do mundo. Dali, saí para vivenciar uma aventura pelo tempo, finalizando a viagem, 15 dias depois, na Alexandria, um outro importante porto comercial dos tempos antigos. Queria falar mais do percurso - o mundo é cheio de surpresas e descobertas! - mas vamos ao que interessa.
O novo jeito de vender
Queria efetivamente entender de onde vinha a atual cultura comercial, e se realmente conseguiria achar alguns traços do mundo antigo no jeito das pessoas comercializarem seus produtos e serviços. Buscava entender mais sobre a origem do jeito de vender, de oferecer produtos e serviços, a tratativa de preços e valores, abordagens comerciais, e muito mais.
Felizmente, fui muito afortunado nas minhas pesquisas, pois muitos povos ainda são culturalmente enraizados ao passado. Devido a uma fraca invasão cultural ocidental em negócios locais, a suas poderosas religiões e aos costumes que trouxeram durante séculos, várias características atuais desses povos, como seu jeito de vender, desenham ainda, na minha opinião, traços milenares na forma de negociar seus produtos e serviços
É Impressionante como alguns mercados mantêm características antigas no seu jeito de fazer comércio, e isso está presente em toda cultura comercial mundial. Acredite: muitos de nós ainda vendemos "do jeito velho de vender".
Os antigos enxergavam valores diferentes nos produtos que comercializavam, e tinham como foco central "o produto": entendiam que o preço reinava como forma determinante nas vendas. O comerciante não se preocupava se aquele produto levaria um benefício real para o cliente, apenas vendia. Uma mentalidade de "se vai servir ou não para o cliente, problema dele".
Assim, o simples fato do cliente não querer seu produto dava ao vendedor a percepção de que o preço era a grande barreira, e ele abaixava o preço até convencer o comprador a fechar negócio.
Outra característica comercial antiga, que é ainda muito presente nos vendedores atuais, é aquela abordagem agressiva e invasiva. É comum nos comércios populares, e nos leva, às vezes, a nos sentirmos quase que roubados (eu odeio!). Até pode funcionar em determinadas situações, mas não fecha a conta para o que vem por aí.
Essa abordagem é herança dos vendedores antigos que, por acreditarem que nunca mais iriam ver seus clientes, usavam da pressão da fala e atitudes físicas recheadas de argumentos infundados, e até mesmo mentirosos, para empurrar seus produtos e serviços.
Era “agora ou nunca". Eles não faziam nenhuma questão de saber se o produto ofertado teria alguma serventia para seu comprador. Eles queriam vender a qualquer custo, e de qualquer jeito. Entretanto, quando o produto era realmente de qualidade e de valor, os vendedores recuavam frente aos compradores e perdiam seu poder de barganha, negando a quase todas as ofertas.
Lembre-se: quando eles ficarem cabisbaixos, podem comprar, pois o produto pode ter uma boa procedência. Passei a entender isso em uma temporada que estive em Hong Kong, outro país com traços comerciais incríveis e uma verdadeira aula de vendas.
Esse jeito de vender que usamos hoje na maioria dos negócios está lastreado em preços alimentados por uma cultura milenar e, acreditem, ficar livre dela vai ser difícil. Não adianta só ficar falando de valor, temos que ter uma estratégia de reprogramação comercial para nos adequarmos aos novos tempos e conquistar o cliente moderno.
Os vendedores antigos foram grandes vendedores, sim, mas não são boas fontes de inspiração para os dias de hoje.
Vamos vender do jeito novo?
Na verdade, não sei se é realmente o jeito novo, ou o jeito certo, mas é o jeito que acredito que funciona de verdade nos dias de hoje.
As empresas que não estão trabalhando desta forma estão espantando seus clientes e criando uma incrível onda de fechamentos de no mundo, principalmente aquelas que vendem direto ao consumidor, o varejo.
Para vender do jeito novo, precisamos, primeiro, tirar o foco do produto e entender efetivamente as necessidades dos clientes. Um exercício que parece fácil, mas é muito mais complexo do que imaginamos. Vamos tentar colocar em segundo plano o preço, as características e funcionalidades dos produtos, e buscar entender qual é verdadeiro valor e importância daquele produto para o cliente. Compreender se o produto o atende, se conseguimos entregar o que ele espera e, quem sabe, até tentar surpreendê-lo.
Para colocar essa abordagem em prática, é preciso redesenhar o seu negócio, elaborando um propósito real de contribuir com a vida das pessoas através dos seus produtos e serviços, e entender de verdade que o lucro virá apenas como consequência de resolver os problemas dos clientes.
Meu amigo Pezão, dono de um bar incrível em Indaiatuba, diz que a venda só se concretiza quando o cliente volta. Ou seja: temos que vender para vender de verdade quando ele voltar!
Ao contrário do que muita gente pensa, o esforço de mudança cultural é muito mais complexo e demorado de ser feito. Por isso muitas lojas fecham: elas sabem o que precisam fazer, até acreditam que aquele é o caminho, mas culturalmente não têm poder de ativação para realizar tamanha mudança no jeito de pensar aplicado à prática da empresa.
Algumas grandes empresas, mesmo que seus donos consigam mudar suas formas de pensar, têm uma cultura tão forte baseada no modelo antigo que talvez precisem morrer para ressuscitar em um novo negócio, para renascer do jeito certo.
Não, não estou incentivando a morte generalizada de empresas. Isso já está acontecendo, basta prestar atenção. E, garanto: não é culpa da crise.
De nada adianta a empresa achar que basta investir em inovação, tecnologia, comunicação ou mesmo em pessoas sem redefinir e validar seu verdadeiro propósito. Investir nessas ações, sem um propósito legítimo para posicionar sua empresa neste novo mercado, é um perigo, e desta forma você pode levar seu negócio para o fim mais rápido.
Outros elementos também são determinantes para o sucesso de uma nova empresa, mas esses vou compartilhar no meu próximo livro, que já está em andamento.
Para resumir: os vendedores só vão vender do jeito novo se suas empresas pensarem definitivamente no jeito novo, ou certo, de fazer negócios.
Boas novas vendas!
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