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Notícia
Alta da Selic afeta pouco a inflação
A alta de seis pontos percentuais desde abril de 2013 dos juros básicos da economia foi insuficiente para controlar o aumento dos preços e BC tenta dar ‘choque de credibilidade’
01/01/1970 00:00:00
Às vésperas de seu seminário sobre inflação, que será realizado na quinta-feira no Rio de Janeiro, o Banco Central (BC) continua enfrentando muita dificuldade para segurar a inflação. Isso, mesmo após ter aumentado os juros básicos da economia, a Selic, em seis pontos percentuais desde abril de 2013.
Para muitos analistas, isso é um sinal de que a Selic deve subir ainda mais. Falta credibilidade do mercado, sobra inflação represada.
Chris Garman, analista da Eurasia, acredita que o BC vem agindo certo mas leva tempo para surtir efeitos. Ele cita o represamento da inflação por muito tempo como um dos principais responsáveis pelo aumento forte recente, desde que tarifas de energia e combustíveis passaram a a ser reajustados. Mas também fala em “inflação inercial”, que resiste mesmo após a economia estar enfraquecida. Ele também cita o esforço do BC para dar um choque de credibilidade - afinal, expectativas são um importante componente da formação dos preços.
O presidente do BC, Alexandre Tombini, vem repetindo que já ouve avanços mas reconhece que foram insuficientes e, por isso, “vai continuar vigilante”. Ontem, a pesquisa Focus com economistas do mercado mostrou que a estimativa para a inflação de 2016 ficou praticamente inalterada, em 5,50%, ainda relativamente distante do centro da meta, de 4,5%. Na pesquisa top 5, com os cinco economistas que mais acertam, a previsão para a Selic no Copom de junho subiu de uma alta de 0,25 pp para 0,50 ponto percentual (p.p.). Na sexta-feira passada, durante evento em São Paulo, também o diretor Luiz Awazu Pereira voltou a bater nesta tecla.
O mercado ainda não foi convencido de que o BC realmente fará o que for necessário para trazer a inflação de volta à meta, diz Alexandre Schwartsman, que foi diretor do BC na gestão anterior e tem sido um dos economistas mais críticos à condução da política monetária nos últimos anos.
Para o ex-diretor, o fato de o BC não ter conseguido assegurar a convergência do IPCA para o centro da meta em nenhum dos últimos 6 anos e as mudanças de mensagem nos últimos meses, ora destacando a parcimônia, ora a vigilância, pesam contra a tentativa atual de melhorar as expectativas.
“Eu não descarto que o BC tenha mudado para valer seu discurso. Mas a reputação deste BC em relação ao cumprimento da meta não é boa”.
A Selic teria de subir para mais de 14% para levar o IPCA a 4,5% no final de 2016, diz Schwartsman. Contudo, o mercado acha que o BC pode interromper a alta e posteriormente retomar os cortes antes do necessário diante do cenário de recessão. Schwartsman espera apenas uma alta de 0,25 pp em junho. “O mercado acha que em algum momento o BC abre o bico”.
E, se os economistas estão reticentes, os operadores parecem ainda mais cautelosos. Os títulos do Tesouro negociados no mercado projetam uma inflação implícita ainda na casa de 7% em 2 anos, mesmo com os contratos de DI estimando Selic a 14% no final do ciclo de alta.
Na última ata do Copom, o BC reforçou a mensagem de que o IPCA terá de convergir para o centro da meta no final de 2016. Os números mostram que o mercado ainda paga para ver.
Para o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, a inflação vem surpreendendo para cima e, além disso, ele chama a atenção para o fato de o efeito da alta do câmbio ainda não ter sido percebido integralmente. Ele lembra que desde setembro do ano passado a moeda norte-americana acumula ganho superior a 30%.
Já a visão do diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octávio de Barros, é menos crítica. Em relatório, Barros ressaltou que o mercado revisou para baixo, pela segunda semana seguida, sua projeção para a inflação de 2016, conforme apontado pelo Relatório Focus, com estimativas coletadas até o dia 15 de maio, divulgado ontem. “A mediana das expectativas para o IPCA de 2015 foi revisada para cima, de 8,29% para 8,31%, enquanto para 2016 foi revista para baixo, de 5,51% para 5,50%. As estimativas para o PIB em 2015 continuaram apontando uma queda de 1,20% e para 2016 mantiveram crescimento de 1,00%”, diz.
A mediana das projeções para a taxa Selic permaneceu em 13,50% neste ano e subiu de 11,63% para 11,75% em 2016. Por fim, as estimativas para a taxa de câmbio se mantiveram estáveis em R$/US$ 3,20 no final de 2015 e em R$/US$ 3,30 no final de 2016, diz o diretor.
O economista-chefe da SulAmerica Investimentos, Newton Rosa, também não vê sinais de trégua à frente. Em relatório, diz que o IPCA-15 de maio, preliminar do índice oficial de inflação, deve mostrar uma alta de 0,60% no mês (8,24% em doze meses), desacelerando frente ao dado fechado de abril (0,71%).
“Esse comportamento refletirá a acomodação da alta dos alimentos, bem como a menor pressão do item transportes, refletindo a queda em passagens aéreas e combustíveis. O cenário, no entanto, permanecerá ruim”, acredita. “A inflação de serviços continuará evoluindo em torno de 8% neste ano, por contas da inércia inflacionária e do choque de preços administrados, impedindo que o aumento do desemprego e a queda na renda real resultem em um arrefecimento maior para os preços do setor”. Com Bloomberg
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