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Notícia
É preciso ir devagar no ajuste do câmbio
Maior crítico da política de valorização do real nos últimos anos, o economista prega a desvalorização progressiva da moeda para país voltar a ser competitivo
01/01/1970 00:00:00
O professor Luiz Gonzaga Belluzzo é considerado um dos mais influentes economistas keynesianos do Brasil. Integra, assim, a linha dos que se contrapõem à ortodoxia do monetarismo. Isso confere ainda maior importância ao que recomenda, nesta entrevista ao Correio, para a política cambial e a política fiscal do país.
Belluzzo é um dos maiores críticos do câmbio valorizado, que, afirma, erodiu a base industrial do Brasil ao longo das últimas duas décadas. Mas a reversão dessa tendência, com a alta do dólar, deverá ser lenta e progressiva, adverte, do contrário haverá mais inflação, e o ganho para a indústria será nulo.
Quanto ao superavit primário, a economia feita pelo governo para garantir o pagamento dos encargos da dívida pública, Belluzzo acha que poderia, do ponto de vista técnico, ser reduzido, obedecendo a uma política anticíclica neste momento de queda no crescimento econômico. Ele não recomenda, porém, tal caminho. Considera importante manter o superavit em pelo menos 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) e assim restaurar a confiança na economia, o que beneficiará, acredita, o setor privado.
Não bastasse o peso das opiniões de Belluzzo por si só, é importante lembrar que elas são levadas em conta com muito cuidado no governo. Ele prefaciou um livro do ministro da Fazenda, Guido Mantega. E é professor, há décadas, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde a presidente Dilma Rousseff fez aulas de pós-graduação nos anos 1970 e 1980.
As previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano são cada vez menores. O senhor compartilha dessa expectativa?
O crescimento vai ser modesto por conta de vários fatores, inclusive o aumento da inflação. Ganhos obtidos com aumentos salariais estão declinando. Foi-se o efeito inicial dos reajustes do salário mínimo e das políticas sociais. Mas veja que estamos falando de crescimento baixo, não de recessão. Deverá acontecer uma mudança do crescimento baseado em consumo para o crescimento baseado em investimento.
Como fazer para que essa transição seja acelerada?
Você faz essa pergunta como se fosse para um mecânico de automóveis. Mas é algo muito mais complexo. As concessões, as parcerias público-privadas e os novos investimentos da Petrobras deverão resultar em maior crescimento, mas somente a partir do segundo semestre de 2014, a despeito dos desejos de que se realizem logo. Temos um problema muito grave, os 20 anos de valorização cambial, que foram muito danosos. É bom viajar para o exterior e comprar produtos importados baratos. Mas isso erodiu a nossa base industrial. Temos feito esse trabalho de destruir a indústria com muita acuidade. Diz um economista que essa é uma opção da sociedade, embora eu nunca tenha visto a sociedade se pronunciar sobre isso. Economistas em geral gostam de opções binárias: ou industrialização ou consumo e bem-estar. Fico impressionado. Acham isso bom porque simplifica tudo. Não é preciso pensar.
A atual redução do crescimento poderia ter sido evitada?
É um problema de timing. A mudança poderia ter sido iniciada antes, mas o governo se preocupou em manter a combinação câmbio e juros. A resposta à crise em 2008 foi muito eficaz. Em 2009, houve queda do PIB devido ao tranco. Mas em 2010 o crescimento veio em 7,5%, devido a um ciclo de consumo muito forte. Ali tinha que ter iniciado a construção dessa passagem, e então não teria problema. Haveria alguma desacelaração, mas subiria o investimento público. A infraestrutura brasileira está sem investimento há 30 anos. É preciso lembrar que a indústria de bens de capital foi construída no Brasil com demanda das estatais. Isso fazia o trabalho de coordenação dos investimentos privados. Quando as estatais foram privatizadas, isso teria de ter sido substituído por investimentos do Orçamento. Uma coisa que se sabe é que não se pode ajustar uma economia em recessão cortando gasto. Outra é que empresário vive em um mundo de incerteza brutal. Aqui no Brasil, se inventou uma coisa que é ou Estado ou mercado. Com mais molho ou menos molho. Isso é ridículo, coisa de gente pouco lida. Não existe capitalismo sem Estado. A história do capitalismo é marcada pela relação entre Estado e mercado. Claro que a combinação entre gasto público e orçamento corrente é algo que deve ser muito equilibrada.
O PAC não é uma tentativa do governo de fazer essa coordenação de investimentos?
É, mas demorou. E de repente sobrevieram outras questões, como a situação externa. Qualquer governo que assuma a partir de 2015 vai ter de enfrentar essas questões, inclusive a do câmbio. É uma questão complicada. Se você desvaloriza, há impacto inflacionário. Para quem faz arbitragem de câmbio é fácil: você zera a operação e acabou. Mas, no mundo real, o câmbio valorizado muda a constelação de fornecedores para fora. O passado importa, porque se constrói uma cadeia de relações da qual é difícil se desfazer. Não me lembro de ter tido um período tão longo no Brasil com câmbio valorizado. Nos anos 1970, o Simonsen (Mario Henrique Simonsen, ministro da Fazenda do governo Ernesto Geisel e do Planejamento no governo João Figueiredo) começou a atrasar a correção de tarifas públicas e a correção do câmbio. Com isso, as estatais foram tomar dinheiro emprestado lá fora. Se explicasse ao meu cachorro que isso resultaria em crise, ele entenderia. Foi assim: as estatais quebraram, e o Delfim (Delfim Netto, ex-ministro das pastas Fazenda, Agricultura e Planejamento entre 1969 e 1985) pegou o rabo de foguete. Antes, quando ele saiu do governo e o Simonsen tornou-se ministro da Fazenda, o país estava equilibrado, com US$ 12 bilhões de dívida e US$ 12 bilhões de reservas. Aí veio o choque do petróleo. O Paul Volcker (então presidente do Fed, o banco central dos Estados Unidos) subiu os juros para 12% ao ano, depois para 14% e, mais tarde, para 21%. Os norte-americanos estavam cuidando da preservação do dólar como reserva. Passamos uma década de crise monetária e financeira. Depois, o dinheiro voltou para periferia. O Brasil estava com ativos desvalorizados. Hoje, dizem que há desequilíbrio fiscal, mas no Plano Real o deficit era de 30% do PIB e as reservas internacionais eram de US$ 40 bilhões. Aí começou a valorização do câmbio. A partir de 2003, quando começou a bolha imobiliária, o dinheiro voltou para cá e tivemos outro ciclo de valorização, que terminou em 2008.
Qual o nível ideal do câmbio?
É o que equilibra a balança. Commodity não depende de câmbio, mas sim de preço internacional. Temos atualmente deficits comerciais em todos os setores da indústria. Concordo que é preciso melhorar a competitividade. Mas como o empresário pode ter estímulo para fazer isso se tem uma carga enorme do sistema tributário irracional? O governo, no afã de aliviar a indústria, começou a implementar desonerações. Isso significa perda de receita em uma economia que está em baixo nível de atividade, e afeta o superavit primário.
O que fazer no caso do câmbio?
Temos vantagem de dispor de US$ 380 bilhões de reservas. É preciso ir devagar com o câmbio. Se a desvalorização for muito forte, o efeito inflação come tudo, e assim a vida do empresário não se resolve. Temos de promover uma desvalorização progressiva. Se a coisa ficar grave, talvez seja preciso usar soluções mais drásticas, como a centralização cambial. Mas acho que isso não será necessário, pois a reversão da política monetária norte-americana será mais lenta do que se imagina. Com os leilões de petróleo, daqui a dois ou três anos estaremos com exportações razoáveis. Por isso, sou otimista. Meu medo é que voltem os que não entenderam nada da globalização, que acharam que era uma homogeinização. Que o mundo é plano. Não: é cheio de diferenças. Cada um se adaptou de uma maneira. Os que se adaptaram melhor são os que usaram controle de capitais de outros mecanismos. (O país) pode voltar para a mão deles. Pensam que o câmbio é um fenômeno natural, como a lei da gravidade. Mas todo mundo intervém, até a Suíça, que, diferentemente do que se pensa, tem uma importante indústria. Para não falar dos asiáticos. Mas isso é um problema de força, não de argumentação. Não adianta ficar discutindo. Eles não estão interessados em conhecimento.
Como avalia a situação fiscal do país?
Temos uma posição de política fiscal muito melhor do que países em desenvolvimento: Índia, latino-americanos etc. O México teve default da dívida privada. O superavit é importante. Diante da correlação de forças, é necessário dar esse sinal aos mercados financeiros. Eles revestem tudo de uma questão técnica, mas é uma questão de poder.
O superavit primário está em nível adequado?
O ideal seria, se possível, um pouco mais do que 2,3% do PIB. Seria razoável, tecnicamente, quando há desaceleração, como agora, reduzir o superavit. Mas o mais importante para o setor privado é o impacto sobre expectativas. É preciso ter persistência e paciência.
O governo é acusado de fazer maquiagens para chegar a esse número. Qual a sua avaliação?
No início do ano, de fato, houve impropriedades. Ter um superavit de 1,9% com números corretos seria melhor. Mas nem tudo o que se considera maquiagem é impróprio. O pessoal acha ruim porque se transferem dividendos do BNDES para o governo. Mas essa é uma operação de governo. O dinheiro entrou. O pessoal do FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) usou receitas de privatização. Agora, também poderá ser usado o que entrar com o leilão do campo de Libra, por exemplo.
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