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Notícia
Ideias simples ajudam a salvar pequena empresa
"Da pequena, nós cuidamos. A grande não precisa. Mas da média ninguém cuida", sintetiza a alma do programa o diretor-técnico do Sebrae-SP, Ivan Hussni.
01/01/1970 00:00:00
Quase metade das pequenas e micro empresas morre ao tentar subir um degrau na escala do mundo dos negócios. Foi pensando nisso que o Sebrae criou, em 2008, o programa ALI (Agentes Locais de Inovação), cujo propósito é oferecer consultoria especializada e personalizada a pequenos empreendedores, com ideias muitas vezes simples mas suficientemente grandes para alavancar uma engrenagem emperrada. O serviço é gratuito.
"Da pequena, nós cuidamos. A grande não precisa. Mas da média ninguém cuida", sintetiza a alma do programa o diretor-técnico do Sebrae-SP, Ivan Hussni. Para ajudar aqueles que querem deixar de ser pequenos para virar médio ou grande, o Sebrae utiliza bolsistas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) das áreas de economia, gestão e administração no papel de agentes.
Os agentes vão até a empresa solicitante e analisam treze itens que vão desde o layout da empresa, logística, processo produtivo e marketing até o canal com os clientes. O pilar é a inovação, o que não significa necessariamente investimento pesado em tecnologia. Basta um olhar mais apurado para fazer brotar uma ideia simples que propicia ao negócio diferenciar-se da concorrência.
Embora o balanço do programa ainda não tenha sido concluído, o que deve ocorrer em julho, Hussni dá um diagnóstico prévio do principal problema enfrentado pela maioria dos assessorados. "Basicamente o que falta é visão de gestão, planejamento. Normalmente, o empreendedor monta a empresa num momento em que a economia cresce rapidamente, mas não conhece o mercado em que quer atuar e não tem um plano de ação para fazer o negócio crescer", avalia.
Gestão era um dos problemas do engenheiro Vittorio Puccinelli Rela, dono da Bauer Metalúrgica, empresa criada em 2009 em Indaiatuba (SP), que fabrica equipamentos para manuseio e transporte de minérios. Em setembro do ano passado, ele recebeu a visita de um agente, que detectou que a empresa precisava melhorar o controle financeiro, o marketing e a produção. Outro problema, comum à maioria das pequenas e micro, é a dependência quase total de uma só fonte. "Cerca de 90% do meu faturamento estava nas mãos de um único cliente", conta Rela.
O ALI possui quatro etapas: diagnóstico, implantação, evolução/ajustes e acompanhamento. Ao todo, a empresa tem 24 meses para andar sozinha. Até que consiga, é acompanhada pelo técnico. Rela já implantou algumas das medidas sugeridas e comemora os resultados. "Consegui um aumento de 30% no faturamento".
Além disso, diz que a reorganização da produção, com dez funcionários, propicia-lhe ficar menos tempo no "chão de fábrica" e pode se dedicar ao que mais gosta, que é desenvolver tecnologia. Ele criou um guindaste para transporte de cadeirantes, que já está em teste em uma unidade da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) no interior.
Outra pequena ideia jogou um facho de luz nos negócios da Pão de Queijo Cremoso, empresa familiar fundada em 1999 em Hortolândia (SP). "Já tínhamos engavetado um projeto de venda porta a porta. Como o agente sugeriu que ampliássemos nossos canais de venda, tiramos o projeto da gaveta e já notamos o incremento nas vendas", conta Heber Girolo, diretor-financeiro e administrativo.
Cabeleireira tem lucro de 50% com lavatório móvel
Foi em um momento de crise que a cabeleireira Gislaine de Fátima Marcandali, de São Paulo, desenvolveu seu lado empreendedor. Ela criou um lavatório móvel que lhe rendeu, aos 53 anos, o Prêmio Mulher de Negócios Sebrae, em março deste ano, na categoria empreendedora individual.
Mãe de três filhos, Gislaine não conseguia mais conciliar as tarefas domésticas com o trabalho como cabeleireira num salão de bairro, na Zona Norte de São Paulo. Decidiu atender suas clientes nas casas delas. Mas aí vieram as dificuldades. "Eu não tinha minhas ferramentas de trabalho à mão, como um lavatório para cabelos", recorda.
A partir daí, ela foi a campo e descobriu que, no mercado, não havia lavatórios móveis disponíveis. Num clique, decidiu procurar o Sebrae. Com a ajuda técnica da entidade, desenvolveu o modelo do lavatório e, na sequência, entrou com o pedido de registro de patente, que ainda está para sair. Isso aconteceu em 2007.
Gislaine arregaçou as mangas e foi atrás de quem produzisse a peça. Levou a novidade a feiras e exposições e ficou empolgada com a receptividade ao seu invento. "Muita gente vinha dizer 'nossa, eu também pensei nisso, mas que bom que você executou'". Todavia, "no meio do caminho havia uma pedra". "Comecei a ter problemas com o material", diz ela. Produzido em fibra de vidro, o equipamento começou a apresentar vazamentos. Alguns clientes ligaram reclamando, pedindo o dinheiro de volta.
O desânimo a abateu no início, mas, mesmo debaixo de muito choro, literalmente, Gislaine foi atrás de orientação para melhorar o produto. Com a ajuda técnica do Sebrae, redesenhou o lavatório, agora fabricado em aço inox. Produto melhor, preço mais alto.
O lavatório móvel é atualmente comercializado em dois modelos: standard (R$ 2.350) e luxo (R$ 2.980), sendo o primeiro manual e o outro, automático. Gislaine vende de 10 a 15 deles por mês, além de alugá-los para feiras e eventos de beleza.
Como o produto pesa pouco (apenas 22 quilos), muitas brasileiras que trabalham como cabeleireiras no exterior levam a peça na bagagem. Pelas contas de Gislaine, o lavatório já aportou em países como os Estados Unidos e o México.
Empolgada, ela já testa outros caminhos. Desenvolveu uma cuba para lavar a cabeça de pacientes acamados. "Já vendi uma para uma conhecida, mas, por se tratar de um produto para a área da saúde, preciso ir atrás da regulação", explica a empreendedora.
Dinheiro mesmo, Gislaine passou a ganhar no terceiro ano do negócio. Conta que o lucro é de 50% e, por isso, torce o nariz para quem a desdenhou no começo, achando que aquilo tudo "era uma grande besteira". "Já ouvi de tudo, que mulher não é capaz, é mais fraca. O que a gente não tem é força física, mas temos criatividade. Chorar a gente chora, mas, fazer o quê?" (AC)
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