A tecnologia ajuda na hora de fazer a declaração, mas ela depende de uma etapa anterior para realmente fazer diferença
Notícia
Inovação sem criatividade: interessa?
Muitas empresas podem até valorizar (e cobrar!) ações inovadoras das equipes, mas culturas organizacionais engessadas acabam tolhendo a criatividade e comprometendo o surgimento de novas (e boas!) ideias
01/01/1970 00:00:00
No post de hoje, começamos respondendo ao leitor Augusto Brito, que nos pergunta qual comportamento é mais importante nas empresas atuais: ser "criativo" ou "inovador"?
Caro Augusto, a criatividade é um processo. Ela pode ocorrer no nível individual, como quando você chega a uma ideia nova, ou em grupo, como quando sua equipe de trabalho propõe uma nova estratégia para um produto da empresa. Quando falamos em criatividade estamos falando nos processos mentais e comportamentais que levam pessoas e grupos a chegarem a novas ideias. Uma inovação é o produto da criatividade. Dessa forma, podemos sim dizer que uma pessoa, um grupo ou até uma empresa são inovadoras, desde que elas tenham um histórico de novidades realizadas. Ajustando nosso vocabulário, então, dizemos que pessoas criativas podem ser consideradas inovadoras se tiverem sucesso com suas ideias.
Voltando à sua pergunta, você questiona ainda o que seria mais importante nas empresas atuais, e minha resposta aqui precisa ser pragmática: muita calma nessa hora.
Outro leitor dessa coluna, o Roberto, enviou uma experiência de um projeto em que ele trabalhou um ano mas que ainda não conseguiu colocar em prática. O Roberto levantou, então, a questão: apesar de tudo que se fala sobre inovação, no caso do Brasil em particular, as pessoas e empresas ainda não colocam a mão no bolso para arcar com ela?
Augusto e Roberto: Sou um grande defensor do estímulo e ensino da criatividade. A criatividade, de projetos empresariais a tocar um instrumento, dançar ou pintar um quadro só tem a enriquecer a vida. Há uma diversidade de pesquisas que mostram que o retorno do trabalho criativo não é somente financeiro, como quando um produto dá certo ou você consegue vender um quadro ou ser pago para tocar, mas também refletem uma melhora na qualidade de vida, na satisfação com as realizações pessoais e até com uma melhor perspectiva sobre nossas realizações quando olhamos para os feitos de nossa vida em retrospecto. Um histórico de criatividade em qualquer área pode ajudar a diminuir o sentimento de vazio que muitas pessoas têm ao chegar em diferentes etapas da vida, olhar para trás e sentirem que não realizaram nada. Tirando qualquer ganho financeiro, por si só esse efeito terapêutico do trabalho criativo deveria ser suficiente para a criatividade ser mais estimulada nos diferentes setores da vida.
Agora vamos ser pragmáticos: é de minha opinião que a maioria das escolas não está preparada para ensinar tal coisa, e a maioria das empresas, apesar dos discursos, não só não está preparada, como costuma punir funcionários que tentam ser criativos.
Esse comportamento por parte das empresas pode ocorrer por diversos motivos, que depende de empresa para empresa. A causa pode ser operacional: muitas empresas dependem da repetição de padrões e comportamentos. Qualquer desvio do comportamento estabelecido pode ser visto como uma falha do sistema, e punido e consertado de acordo. A causa pode ser de desenho organizacional: há empresas que separam os setores e pessoas "criativos" dos "não criativos". E enquanto os "criativos" são cobrados para chegar a coisas novas, os "não criativos" continuam realizando tarefas repetitivas, e podem até assumir uma posição de funcionário de segunda classe dentro da empresa (como é o caso de muitas empresas de publicidade, que tratam seus "criativos" de modo muito diferente do pessoal "operacional"). Em muitos outros casos a causa pode ser ainda cultural: locais, chefes, empresas e culturas podem exibir elementos como autoritarismo e aversão ao risco. Se você está em uma cultura bastante hierarquizada e que as pessoas não lidam bem com perdas, terá dificuldades em ser criativo.
A lista continua, mas o fato é que, por uma infinidade de motivos, apesar de ser moda anunciar ao mundo como determinada empresa é criativa ou inovadora, nem sempre esse é o caso, ou nem sempre todas as pessoas dentro de uma empresa possuem a autorização para exercer a sua criatividade. Portanto, Augusto, é importante sim ser criativo, mas se sua empresa não valoriza isso, procure outras formas de expressar sua criatividade. Aprenda uma habilidade, arranje um novo passatempo ou atividade para fazer em suas horas livres. O local em que você ganha seu sustento não precisa ser o mesmo onde você exerce sua criatividade.
Voltando ao Roberto. Costumo ouvir com certa frequência pessoas afirmarem em minhas palestras que o brasileiro já é um povo criativo por natureza. Volta e meia ouço exemplos como Santos Dummont, Paulo Coelho ou Romero Britto.
Eu pergunto, então, se a aeronave que o Santos Dummont desenhou é a mesma que entramos quando queremos atravessar o oceano, pergunto quantos brasileiros figuram em listas de artistas mundialmente famosos, quantas patentes, artigos científicos ou qualquer outra medida de comparação temos como um país em relação a outros. A verdade é que, para um país de 190 milhões de pessoas, ainda temos muito pouco a mostrar quando se trata de inovação.
Como aprendemos acima, a inovação é a medida da criatividade. Apesar de pequenos avanços e algumas pessoas que conseguem brilhar em uma ou outra área, ainda temos muito a aprender. Essas mudanças, que passam pela cultura, legislação e vão até a psicologia individual não acontecem de uma hora para outra. O importante a manter em mente é que, do ponto de vista individual, precisamos ter a consciência de que a criatividade pode sim ser frustrante. É, sim, algo difícil. Mas, sem dúvida nenhuma, vale a pena.
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