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Notícia
A criatividade deve ser fertilizada
Entenda o que o design thinking tem a ver com isso
01/01/1970 00:00:00
A largada é uma rampa de lançamento à velocidade de 45 km por hora. São 50 milhões que se lançam simultaneamente na corrida do reality show, sem qualquer equipamento desenhado para melhorar a performance. Os concorrentes dependem somente da sua própria capacidade para acelerar o ritmo. Uma hora depois, somente os mil atletas que conseguiram aumentar a velocidade em um desempenho crescente atingem o enorme obstáculo. O vencedor será premiado se conseguir ultrapassá-lo.
Sem qualquer descanso, a maratona continua por mais quatro extenuantes horas. Nessa etapa final, somente um deles conquistará o direito de ser perpetuado na memória do tempo. Como as regras do jogo são impiedosas, todos os outros candidatos ao prêmio máximo são extintos, mortos pela entidade que administra a competição. Milhões de mortos para glorificar somente um vencedor que terá sua identidade aceita pelos outros heróicos vencedores anteriores.
Parece um roteiro de ficção científica estrelado pelo astro de cinema Vin Diesel ou uma forma excêntrica de fazer uma seleção radical de candidatos. Porém, eu e você somos o resultado desse rally radical que nos deu o direito de sermos fecundados e concebidos dentro das nossas mães. Depois do fantástico embate no qual venceu o mais rápido, o mais forte e adaptável da espécie, espermatozóide e óvulo se fundiram para gerar uma nova identidade diferenciada, cada um de nós, humanos.
Somos todos vencedores e herdeiros dos atributos do conquistador e da receptora. Ficamos nos preparando em uma câmara de gestação por nove meses para outra aventura épica, o nascimento oficial. Desde o momento em que rompemos nesse mundo, todas as células do corpo trabalham sem parar para alimentar a mente, a central administrativa que irá comandar o crescimento da nova unidade. O cérebro nunca para de aprender porque ele foi desenhado pela evolução para se adaptar continuamente.
Um dia, fomos enviados para a escola primária. Foi lá que nos ensinaram alguns princípios e muitas regras que deveríamos seguir para sermos aceitos pelos outros da espécie.
"Nossas escolas foram projetadas para providenciar mão de obra especializada para uma era de economia industrial, que não existe mais." Esse pensamento pertence ao casal Heidi e Alvin Toffler, escritores e ensaístas futuristas. Quando o sistema educacional de massa foi desenhado, os educadores imaginavam saber qual seria o futuro próximo. Hoje, até o ministro da educação dos Estados Unidos percebe que não temos a menor ideia do que vai acontecer nos próximos cinco anos, mas continuamos a educar crianças e adultos da mesma forma obsoleta.
"Todas as crianças tem um enorme talento natural e nós arrancamos isso delas de uma forma bem cruel. Criatividade hoje é tão importante na educação como a alfabetização e devíamos tratá-la com a mesma importância." São as palavras proferidas por Sir Ken Robinson, palestrante, autor do livro The Element, consultor em educação e especialista em criatividade e inovação.
Não somos educados para pensar criativamente
Nós fomos ensinados a repetir automaticamente as regras e a priorizar as matérias exatas, fomos preparados para não errar. O resultado é que as crianças, que são sempre naturalmente criativas, vão sendo ensinadas a não arriscar. Se não estamos preparados para o risco de errar, nunca chegaremos a uma ideia original. Então essas crianças crescem e vão trabalhar em empresas que também punem os erros. A ponto de a mídia rotular as mentes adultas que conseguiram ser publicamente criativas como rebeldes. Existem dezenas de exemplos que mostram isso, principalmente na área musical.
Nós nascemos como vencedores, começamos a crescer como descobridores criativos do mundo, mas fomos ensinados a abandonar o lado criativo do cérebro para nos refugiarmos no lado racional. Agora estamos doentes sem saber como gerenciar o nosso futuro. Nosso sistema de ensino prepara pessoas para os problemas de ontem, não para o futuro que chega cada vez mais veloz. De vencedores a perdedores graças à educação projetada por pessoas de boa vontade.
"O inferno está cheio de boas intenções"
(Provérbio datado do século XVII)
O atual sistema de ensino foi construído tanto pelo estado como pelos homens de negócio para educar multidões o mais rapidamente possível, utilizando a menor quantidade de energia disponível. Isso significa repetir indefinidamente a mesma operação de ensino como uma linha de montagem de mentes. Porém, as empresas que tentaram exaustivamente repetir esse processo esbarraram em um limite que as coloca muito próximas umas das outras. Seus produtos ou serviços acabaram ficando parecidos e repetitivos. Bruce Henderson, que fundou uma das mais rentáveis empresas de consultoria do planeta, a BCG, dizia que "seus competidores mais perigosos são os que mais se parecem com você. As diferenças entre você e seus competidores são a base da sua vantagem."
Nesse momento, as empresas que se destacam no mercado percebem que o maior valor que elas possuem é o somatório ativo dos cérebros dos seus funcionários e que essa interatividade criativa, multidisciplinar e colaborativa pode gerar valor permanente. Esse valor é imensamente superior aos bens materiais que elas possuem. Mas a inteligência das pessoas ainda não costuma ser aproveitada na sua plenitude. Nem na sua capacidade de ser diversa nas suas habilidades pessoais, nem na sua enorme facilidade em experimentar a interatividade coletiva de vários cérebros simultaneamente. Infelizmente, nós não fomos incentivados a expandir a nossa criatividade e não existe inovação sem um processo criativo como suporte.
Eu tenho uma pergunta e uma resposta. O que as empresas podem fazer para aproveitar melhor a criatividade de seus associados para gerar valor diferenciado?
Várias da maiores empresas do mundo, de vários países diferentes, estão praticando o design thinking dentro das suas estruturas. Várias das maiores universidades do mundo estão oferecendo cursos de design thinking para administradores, engenheiros, médicos e até para designers. Design thinking é uma metodologia de resolução de problemas complexos que aproveita a espontânea metodologia do design, uma capacidade que todos os seres humanos possuem naturalmente. O reitor Roger Martin, da Rotman School of Management da Universidade de Toronto, é um entusiasta da disciplina e enfatiza: "Toda empresa precisa de design thinkers, inclusive bancos e escritórios de advocacia".
"Os educadores, executivos e funcionários públicos em todo o mundo estão investindo no potencial da metodologia para fornecer uma nova visão e aumentar a inovação em uma época na qual precisa-se desesperadamente de ambas", são palavras de uma reportagem chamada "Como cultivar os futuros líderes", editada no site da Businessweek. Já as citações sobre o design thinking são fáceis de se achar, elas estão espalhadas pela internet, inclusive nos sites das revistas de negócios.
Mas o que o design thinking tem a ver com o conteúdo desse artigo?
Tudo, porque é uma metodologia não linear que trata de usar as habilidades dos dois lados do cérebro. Além de investigar e analisar um problema de uma forma metodológica e racional, como reconhecer padrões, ela incentiva a nossa capacidade intuitiva para desenvolver ideias que possuam significado emocional, bem além do funcional. É uma técnica que se utiliza das habilidades dos designers de serem empáticos, sensíveis, otimistas, de serem experimentadores convictos e capazes de trabalhar com equipes colaborativas e interdisciplinares. Designers costumam aceitar a ideia de que é melhor errar mais cedo para acertar logo depois. Os design thinkers são especialistas em resolução de problemas de qualquer tipo, além de inventores de novos modelos de negócios.
Pode parecer um antigo anúncio de remédio para todos os males, e talvez seja. Mas, se você deseja uma mudança radical e quer que todas as células do seu corpo entrem em um dinamismo consciente mais positivo, tente praticar o design thinking. Qualquer pessoa pode ser um design thinker, basta ter uma mente ativamente curiosa, querer voltar a ser espontaneamente criativo e aceitar a ideia de que o futuro pode ser melhorado todos os dias. Consigo constatar isso em cada curso realizado, quando empreendedores, administradores, engenheiros, arquitetos, psicólogos, pesquisadores, especialistas em branding ou marketing abraçam a metodologia com entusiasmo.
Além disso, a prática do design thinking está alinhada com as necessidades de uma radical mudança no aprendizado contínuo, mais focado na criatividade e na capacidade de gerar inovação. A criatividade deve ser fertilizada nas escolas, nas empresas, na sua casa.
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